Fenômeno climático observado pela primeira vez na França
Um fenômeno climático inédito, conhecido como nuvem de pirocumulonimbus, foi registrado pela primeira vez na França, gerado por um incêndio florestal intenso. Essas nuvens, compostas por ar quente, fumaça e umidade, aceleram os incêndios por meio de ventos fortes e brasas, e sua ocorrência tende a aumentar na Europa à medida que os incêndios florestais se intensificam.
Jean-Baptiste Filippi, da Universidade da Córsega, explicou que “você tem essa coluna inclinada que suga o ar e propaga brasas à frente, e também cria relâmpagos. Essa é outra forma de acender combustíveis na frente do fogo, então essas células são imparáveis”.
Incêndios na região da Gironde e suas consequências
Atualmente, a França enfrenta uma grave crise de incêndios na região da Gironde, que o presidente Emmanuel Macron classificou como a mais severa desde a Segunda Guerra Mundial. Desde a semana passada, o incêndio já consumiu mais de 420 quilômetros quadrados, chegando a 15 quilômetros da cidade de Bordeaux e forçando a evacuação de cerca de 220 mil pessoas. A nuvem de pirocumulonimbus foi gerada em 24 de julho, de acordo com autoridades regionais, e as brasas e relâmpagos resultantes desencadearam novos focos de incêndio.
Sophie Brocas, prefeita da Gironde, comentou sobre a gravidade da situação, afirmando: “Enfrentamos outra tempestade de fogo, o mesmo fenômeno incrível, sem precedentes, desconhecido, como o que vimos na sexta-feira, quando percebemos que estávamos entrando em uma nova dimensão.”
Filippi ressaltou que é um milagre que o incêndio alimentado pela nuvem de pirocumulonimbus não tenha causado vítimas até o momento.
As nuvens de pirocumulonimbus, também conhecidas como “dragões de fogo das nuvens”, são frequentemente formadas por grandes incêndios florestais na América do Norte, Sibéria e Austrália. Esses fenômenos têm sido associados a incêndios devastadores, como os incêndios de Black Saturday na Austrália em 2009 e o incêndio que destruiu a cidade canadense de Fort McMurray em 2016.
Na Europa, foram confirmadas apenas algumas ocorrências de pirocumulonimbus, principalmente em Espanha e Portugal, mas a situação parece estar mudando com o aumento da severidade dos incêndios na região.
Francesca Di Giuseppe, do Centro Europeu de Previsão do Tempo, apontou que “é necessário que duas coisas aconteçam ao mesmo tempo: uma fonte de calor extremo e uma atmosfera instável que interaja com o fogo”. Ela alerta que, se o calor proveniente dos incêndios aumentar, como projetado, mais eventos desse tipo deverão ocorrer.
As nuvens começam a se formar quando temperaturas de até 800°C enviam uma coluna de fumaça para o céu. O ar quente sobe e esfria, fazendo com que o vapor d'água se condense sobre as cinzas, formando nuvens de pirocumulus. Se a coluna for quente o suficiente e a atmosfera instável, a nuvem pode atingir a troposfera superior a 10 mil metros, gerando relâmpagos e novos incêndios.
As tempestades desse tipo criam seus próprios sistemas climáticos, com ventos de até 160 quilômetros por hora, acelerando a propagação do fogo. Ventos erráticos e descargas elétricas podem iniciar novos incêndios a até 100 quilômetros do foco principal.
A velocidade e a direção do fogo se tornam imprevisíveis, dificultando o controle e a evacuação planejada. Eric Brocardi, da Federação Nacional de Bombeiros da França, descreveu a situação como um cenário de “David contra Golias” em relação ao incêndio na Gironde.
A tendência de aumento das plumas de incêndio desde 2003 na costa oeste dos EUA sugere que a ocorrência de nuvens de pirocumulonimbus deve se intensificar. A Europa, como o continente que mais aquece, também está propensa a experimentar mais eventos desse tipo, especialmente após a onda de calor recorde em junho e os incêndios florestais subsequentes.
Filippi conclui a necessidade de preparação para esses fenômenos, afirmando: “Precisamos nos adaptar, então fiquem preparados”.
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