Uma semana após os devastadores terremotos que atingiram a Venezuela, o número oficial de mortos, que chega a 2.595, é contestado por especialistas e opositores, que afirmam que a realidade é muito mais grave.
Delcy Rodríguez, a líder interina do país, anunciou na quinta-feira (2) um aumento de 300 mortos em comparação à atualização anterior. No entanto, uma médica legista, que preferiu não se identificar por temer represálias, declarou à CNN que a contagem oficial representa “nem sequer um terço do total real” de vítimas.
Contradições e ceticismo
A legista relatou que o necrotério improvisado em La Guaira, uma das áreas mais afetadas, está processando cerca de 400 corpos diariamente, muitos dos quais estão irreconhecíveis devido aos traumas ou à decomposição. A falta de espaço nos caminhões refrigerados para o transporte dos corpos levou a equipe a deixar os sacos ao ar livre, onde se decompõem rapidamente.
Além disso, a médica não é a única a expressar dúvidas sobre os números oficiais. Políticos da oposição, como María Corina Machado, acusam o governo de minimizar a extensão da tragédia. Venezuelanos no exterior têm criado meios informais para relatar desaparecimentos, já que o governo não divulga dados atualizados há dias.
Com muitas pessoas ainda sob os escombros de prédios desmoronados, o panorama completo das vítimas pode levar tempo para ser estabelecido. A CNN tentou contato com o governo venezuelano para esclarecer como a contagem de mortos é realizada e obter estimativas sobre o número de desaparecidos.
Críticas à transparência do governo
Críticos do governo enxergam a contagem oficial como uma tentativa de subestimar o número de mortos. Após desastres anteriores, como os deslizamentos de terra em La Guaira em 1999, o governo do então presidente Hugo Chávez não divulgou números oficiais de vítimas fatais.
Machado, que deixou o país em dezembro, afirmou que o governo está bloqueando informações sobre a destruição e impedindo sua volta ao país para ajudar nas operações de socorro. Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA comentou que questões políticas sensíveis podem prejudicar os esforços de resposta à tragédia.
No domingo (28), a organização de direitos humanos Provea afirmou que os números oficiais levantam mais dúvidas do que respostas, pedindo transparência total na resposta a essa crise.
Por outro lado, David Smilde, sociólogo da Universidade de Tulane, argumenta que não há evidências suficientes para afirmar que o governo esteja deliberadamente ocultando o número de mortos, dado que a tragédia atraiu significativa ajuda internacional. Ele ressalta a necessidade de mais estudos antes de especulações sobre a contagem de vítimas.
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