A morte do ator britânico e neozelandês Sam Neill, ocorrida nesta segunda-feira (13), trouxe à tona a prática controversa da 'necromancia digital', que envolve a recriação de imagens e vídeos de pessoas falecidas por meio da inteligência artificial. Conhecido por seu papel como o paleontólogo Alan Grant na franquia 'Jurassic Park', Neill foi representado em criações digitais como um fantasma entre dinossauros e chegando aos portões do parque.
O fenômeno não é novo, tendo sido observado em maio, após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de apenas 22 anos. Um dos vídeos gerados por IA mostrava sua suposta 'chegada ao céu' em uma 'academia nas nuvens'. Essas homenagens digitais levantam questões sobre a manipulação da imagem de pessoas falecidas e os limites éticos do uso da tecnologia.
A prática e suas implicações
A 'necromancia digital' refere-se à manipulação de vozes, imagens e traços de personalidade de indivíduos falecidos para criar conteúdos através de IA. A professora Elaine Kasket, da Universidade de Bath, no Reino Unido, que é autora do livro 'All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data', explica que essa prática pode transformar o luto em um produto e resultar na criação de 'fantoches digitais' de pessoas que não podem mais se defender.
Com a popularização de ferramentas de IA, como ChatGPT e Claude, a geração de avatares de pessoas falecidas se tornou mais acessível, permitindo que qualquer um possa criar 'grief bots', ou 'robôs de luto'. Contudo, essa facilidade pode distorcer a memória dos indivíduos representados, como expressou Flávia Christina, filha de Pelé, que se sentiu desconfortável com representações de seu pai, afirmando que não refletem seu comportamento habitual.
Casos controversos e regulamentação
Casos anteriores de recriações digitais em Hollywood incluem o uso de dublês e computação gráfica para finalizar as cenas do ator Paul Walker em 'Velozes e Furiosos 7' e a recriação de Peter Cushing em 'Rogue One: Uma História Star Wars'. No Brasil, a Volkswagen gerou polêmica ao usar IA para criar um dueto entre Elis Regina, falecida há 44 anos, e sua filha, Maria Rita, em uma campanha publicitária. A reação pública foi dividida, levando o Conar a investigar a situação.
Kasket alerta que a regulamentação sobre o uso de imagens de pessoas falecidas não avança rapidamente o suficiente para mitigar os riscos associados ao uso inadequado da IA. Ela defende a criação de um modelo de direitos da personalidade que se estenda além da morte física, limitando legalmente a replicação de restos digitais. Pessoalmente, Kasket incluiu uma cláusula de 'não me transforme em bot' em seu testamento, embora tal cláusula ainda não tenha validade legal no Reino Unido.
Além disso, a exploração de familiares enlutados é uma preocupação crescente no setor conhecido como 'grief tech', onde empresas criam versões virtuais de falecidos para interação com amigos e parentes. Exemplos incluem o caso do jornalista Jim Acosta, que entrevistou um avatar de Joaquin Oliver, um jovem morto no massacre de Parkland, e a utilização do Character.AI para representar Jennifer Ann Crecente, uma jovem assassinada. Kasket enfatiza que o luto é uma experiência individual e que a tecnologia deve ser utilizada com cautela para não prejudicar o processo natural de perda.
Comentários (0)
Entre ou cadastre-se para comentar.