Faleceu nesta quinta-feira (16) em São Paulo, aos 100 anos, a demógrafa Elza Salvatori Berquó. Professora e cientista, com formação inicial em matemática, dedicou sua carreira a analisar dados demográficos e censitários, contribuindo para a compreensão das transformações sociais no Brasil.
Elza se destacou na articulação de importantes centros de pesquisa do continente, fundamentais para entender a urbanização e as mudanças que marcaram o Brasil entre as décadas de 1960 e 2000. Ela defendia o acesso aos métodos contraceptivos, ao aborto e aos direitos reprodutivos, promovendo discussões sobre temas como a mortalidade infantil.
“Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”, afirmou Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, em entrevista ao programa Viva Maria, na Rádio Nacional.
Trajetória acadêmica e contribuição à demografia
Natural de Guaxupé (MG), Elza estudou Matemática na Universidade Católica de Campinas, obteve o mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949 e fez especialização em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos, no ano seguinte.
No ano seguinte, participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ao lado de figuras como Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni, em um contexto de repressão política.
“Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área e abriu um flanco importante para o desenvolvimento da pesquisa e do ensino”, destacou José Marcos Cunha, ex-coordenador do Nepo-Unicamp.
Berquó foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), que, desde 2014, leva seu nome. A instituição centralizou as homenagens a seu centenário, celebrado em outubro do ano passado.
“Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas e sua trajetória incrível”, comentou Gláucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo.
Legado e impacto na sociedade
Em 1995, Elza fundou e presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, que assessora decisões estratégicas do governo federal nesta área.
“Elza Berquó, nossa primeira presidente da CNPD, acreditou profundamente no Brasil e contribuiu para a ampliação dos direitos humanos. Ela viu pessoas atrás dos números e defendeu a democracia e políticas públicas baseadas em evidências”, afirmou Richarlls Martins, presidente da CNPD.
Eduardo Rios Neto, acadêmico que trabalhou com Elza, destacou: “Ela teve uma trajetória excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes na área, como a criação da ABEP e da CNPD.”
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