A chegada do ano de 1900 foi cercada, em diferentes partes do Brasil, por expectativas e apreensões que iam muito além da simples mudança no calendário. Circulavam previsões de catástrofes, rumores sobre o fim do mundo e notícias de fenômenos celestes que alimentavam a imaginação popular. Em Goiás, por exemplo, a inquietação não era uma invenção isolada: fazia parte de um imaginário apocalíptico que atravessou o século XIX e chegou às portas do novo século.

Rumores e previsões

No final de 1899, a cidade de Goiás estava repleta de rumores de que o mundo acabaria à meia-noite do dia 31 de dezembro de 1899. Alguns acreditavam que haveria uma grande prestação de contas, com trombetas, fogo dos céus e a ressurreição dos mortos. Outros, mais céticos, preferiam acreditar que era apenas uma grande celebração.

A notícia corria de boca em boca, atravessava os becos, entrava pelas janelas abertas e se espalhava pelas cozinhas, onde as mulheres, entre uma panela e outra, discutiam se valia a pena preparar a ceia para quem talvez não tivesse tempo de digeri-la.

Nas vendas locais, o assunto era sempre o mesmo. Dona Emerenciana mandou chamar os filhos, genros, noras, netos e até uma cunhada com quem não falava há três anos. Se o mundo acabasse, ela queria que Deus a encontrasse com a família organizada.