O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um paradoxo: enquanto a economia apresenta crescimento e o desemprego atinge mínimas históricas, a percepção popular sobre a economia é negativa. Segundo pesquisa Genial/Quaest de junho, 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% acreditam que melhorou.
A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do 'Conselhão' de Lula, está empenhada em entender essa desconexão. Recentemente, ela lançou o artigo "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", em coautoria com Guilherme Klein Martins, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Fatores da insatisfação
Laura Carvalho aponta quatro fatores principais que explicariam essa insatisfação: a persistente inflação, a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, a mudança nos desejos de consumo impulsionada pelas redes sociais e a frustração de uma geração escolarizada sem empregos adequados.
“Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas de forma mais fácil. Isso gera uma homogeneização e globalização dos desejos de consumo, criando uma sensação de insatisfação”, explica Carvalho.
A economista ainda observa que, nos anos 2000, o crescimento econômico e a distribuição de renda trouxeram um novo público ao mercado consumidor, que agora busca padrões de consumo mais elevados.
Desigualdade e propostas para mudança
Laura Carvalho, que também é diretora de Prosperidade Econômica e Climática da Open Society Foundation, discute a persistência da desigualdade no Brasil, mesmo com elevados gastos governamentais em políticas sociais. Ela sugere que a concentração de riqueza, mais alta do que a de renda, perpetua essa desigualdade. “A influência dos mais ricos no sistema político é desproporcional e atua para preservar a estrutura atual”, afirma.
A economista defende a necessidade de avançar em uma agenda de tributação, incluindo a taxação de riqueza. “O debate deve incluir uma forma de taxação de riqueza, pois a concentração de riqueza é um fator que perpetua a desigualdade”, ressalta Carvalho.
Em relação à crítica de que o governo Lula atua como “pai dos pobres e mãe dos ricos”, ela discorda que os altos juros sejam gerados pelo gasto social, argumentando que essa visão simplifica um problema complexo.
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