A Operação Janus, desencadeada pelos promotores do Gaeco nesta terça (21), revelou que a contadora Meire Bonfim da Silva Poza, que ficou conhecida como a doleira da Lava Jato, recebia R$ 70 mil todo mês em troca de manter a “estrutura contábil” do braço financeiro do PCC. Meire foi alvo de mandado de prisão preventiva. Ela já foi presa uma vez, em abril de 2018 , sob suspeita de envolvimento com esquema bilionário de desvios da Previdência desarticulado pela Operação Encilhamento, da Polícia Federal.

Meire Poza foi investigada na Operação Lava Jato, então sob condução do ex-juiz Sérgio Moro, hoje senador. Ela mantinha relações próximas com o doleiro Alberto Youssef – em 2014, ele firmou acordo de delação premiada com a força-tarefa que desmontou um sólido esquema de corrupção e cartel de empreiteiras que se instalou na Petrobrás, na época. Estadão busca contato com a defesa de Meire Poza e dos demais alvos da operação.

Em maio passado, Meire ressurgiu como personagem da Operação Bazaar que a coloca como operadora de “balcão de negócios” instalado em vários departamentos da Polícia Civil a partir da montagem de inquéritos abastecidos com Relatórios de Investigação Financeira (RIFs) do COAF – órgão de inteligência financeira – para forçar empresários e comerciantes a pagarem propinas . Nesta terça (21), os promotores que enfrentam o crime organizado – todos eles quadros do Gaeco -, incluíram o nome da doleira da Lava Jato no bojo da Operação Janus. Segundo a investigação, Meire emprestava seus conhecimentos contábeis para manter a “engrenagem financeira” da cúpula do PCC e fazia parte da rede de doleiros a serviço da facção havia pelo menos cinco anos.

Os promotores resgataram troca de mensagens entre Meire e Cléber Azevedo dos Santos, “companheiro” do PCC , apontado como operador do braço financeiro da organização criminosa. O Relatório de Inteligência 24/26 mostra a relação entre o grupo investigado na Operação Bazaar e Alexandre Salles Brito, o “Buiu” , réu no processo criminal da Operação Fim da Linha, especificamente no núcleo que cooptou a empresa UpBus, com notória atuação no PCC – para quem ‘companheiro’ Cléber e Meire Poza realizaram múltiplas operações de troca de dinheiro vivo por TED. Esse trecho da Operação Janus cita, ainda, Bruno Ramos Fernandes, Paulo Rogério Silva, o “Paulo Barão”, e Leonardo Meirelles, antigo parceiro de Meire e também alvo da Lava Jato por supostas fraudes em contratos do Ministério da Saúde, na ocasião.

Segundo os promotores, Cléber fez a Alexandre Salles Brito “referências” sobre a atuação de Meire Poza, que atuava como contadora do grupo investigado na Operação Bazaar e “tinha plena ciência de todas as atividades ilícitas dos operadores financeiros do grupo”. Para o Ministério Público, a aproximação do grupo com o PCC ocorreu pela participação de Meire “na prestação de serviços contábeis em favor da organização criminosa , reforçando a integração operacional entre os agentes envolvidos”. A ligação de Meire com o PCC fica evidente, ainda de acordo com o inquérito, por meio de mensagens enviadas por ela ao “companheiro” Cléber, uma delas datada de 26 de novembro de 2024, na qual a contadora relatou que Leonardo Meirelles a apresentou a Cyllas Salerno Elias Júnior – policial civil de São Paulo sob suspeita de envolvimento com faccionados e denunciado por atos de lavagem de dinheiro vinculados ao PCC.