Uma proposta da prefeitura de Bnei Brak, cidade israelense com cerca de 200 mil habitantes e conhecida como centro do judaísmo ultraortodoxo, gerou um intenso debate sobre a liberdade de movimento de homens e mulheres. A ideia era ampliar calçadas, instalar barreiras e sinalizações para separar fisicamente os pedestres por gênero na cidade, localizada a leste de Tel Aviv.

Esse plano tornaria Bnei Brak a primeira cidade em Israel a implementar ruas segregadas por gênero. No entanto, após críticas severas, a execução dos trabalhos foi suspensa e as placas já instaladas foram removidas.

Influência crescente de lobby religioso conservador

Israelienses menos conservadores temem que Bnei Brak possa estabelecer um precedente que fortaleça ainda mais os grupos ortodoxos radicais na sociedade, especialmente em um momento próximo às eleições. Um projeto de lei paralelo em debate no Knesset, o parlamento israelense, questiona a igualdade de gênero, apesar de garantias estabelecidas por decisões da Suprema Corte de Israel.

A segregação de gênero não é incomum no judaísmo. Sinagogas ortodoxas frequentemente possuem áreas separadas para homens e mulheres, e práticas conservadoras incluem evitar contato físico com membros do sexo oposto. Em cerimônias de festas e casamentos, é comum que homens e mulheres se sentem em áreas distintas.

A proposta de segregação nas ruas de Bnei Brak surgiu da necessidade de acomodar eventos como casamentos, onde os rabinos locais desejam que os convidados cheguem já separados por gênero. Contudo, o uso de recursos públicos para impor essa segregação em espaços que deveriam ser neutros é um ponto de controvérsia.

Desafios legais e mudanças na sociedade israelense

Relatos na mídia israelense indicam que os administradores da cidade recuaram e afirmaram que reorganizarão as ruas temporariamente apenas durante grandes eventos. A demografia em Israel tem mudado em favor de grupos judaicos mais conservadores, com famílias ortodoxas apresentando taxas de natalidade mais altas em comparação às famílias não ortodoxas. Isso tem gerado uma pressão política crescente, pois, embora Israel garanta igualdade para todos os cidadãos, os fundadores do país também prometeram respeitar regras religiosas importantes para comunidades judaicas mais conservadoras.

Tentativas anteriores de impor segregação de gênero foram derrubadas pela Suprema Corte. Em 2011, a corte decidiu que não poderia haver segregação obrigatória em ônibus públicos, mesmo em áreas predominantemente conservadoras. Em 2017, a corte ordenou a cidade de Beit Shemesh a remover sinais que impunham códigos de vestimenta para mulheres e limitavam seu acesso a calçadas ao redor de escolas religiosas.

Oposição à segregação em Bnei Brak espera que a Suprema Corte se pronuncie sobre este caso, tendo apresentado um apelo urgente.

Além disso, o Knesset aprovou recentemente uma lei que permite a universidades oferecerem programas de mestrado e doutorado segregados, o que levanta preocupações sobre padrões acadêmicos e o acesso de mulheres a profissões especializadas. Essa votação ocorreu em um contexto de dissolução do parlamento, preparando o terreno para as eleições gerais marcadas para 27 de outubro.