O anúncio no fim de junho deste ano de R$ 610,3 bilhões para o Plano Safra 2026-2027 foi feito há meses e chamou atenção pelo volume de recursos, sinalizando apoio expressivo ao agronegócio brasileiro. A proposta buscava estimular investimentos, financiar a produção e criar condições para o avanço do setor. No entanto, produtores e especialistas afirmam que a realidade encontrada no balcão dos bancos é bem diferente daquilo que aparece nos números oficiais.
Obstáculos no acesso ao crédito
Ao Jornal Opção, o advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, afirmou, nesta terça-feira, 15, que o primeiro obstáculo está no balcão do banco e não no Plano Safra em si. ‘O governo anuncia o volume e as taxas, mas quem decide se o dinheiro chega é a instituição financeira, com os critérios de risco dela. Daí decorre que o produtor com uma restrição cadastral, um CAR pendente ou um financiamento anterior renegociado já entra na fila com nota baixa, ainda que a linha exista e tenha recurso sobrando’, disse.
Outro entrave é a exigência de garantias. ‘O banco pede hipoteca do imóvel rural ou penhor da safra, e o produtor que já deu a fazenda em garantia de operações anteriores não tem mais o que oferecer. O crédito oficial existe no papel, mas ele não consegue chegar até lá’, explicou.
Há ainda o fator calendário. ‘O recurso costuma sair depois da época do plantio, quando o produtor já comprou o insumo a prazo na revenda, a juros bem acima dos que o Plano Safra oferece’, disse.
Caso de produtores em recuperação judicial
Sobre os produtores que procuram recuperação judicial, Eliseu explicou que o caso mais comum é o do produtor que teve duas ou três safras ruins seguidas e cobriu o buraco com crédito de curto prazo. ‘Ele não parou de produzir. Produziu com dinheiro caro. A dívida com o banco vira dívida com a revenda de insumos, que vira dívida com fundo, que vira CPR com trava de preço. Quando ele chega ao escritório, o passivo tem cinco ou seis credores e vencimentos que não conversam com o ciclo da lavoura’, apontou.
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