O relacionamento de Stefan* e Jessica* passou por profundas mudanças após o colapso emocional dela, que resultou em um quadro de depressão. Desde o início da pandemia de covid-19, Jessica não pôde trabalhar por três anos e enfrentou longos períodos em clínicas e tratamento com medicamentos. Para Stefan, essa situação alterou a dinâmica do casal, levando a um contexto de sobrecarga e isolamento.

Desafios da convivência com a depressão

Stefan, um desenvolvedor de software de 44 anos, relata que a fobia social de Jessica a afastou de amigos e atividades cotidianas, tornando simples tarefas, como ir ao supermercado, um desafio. A deterioração da saúde mental de Jessica também impactou a vida de Stefan, que sentiu a necessidade de assumir responsabilidades que antes eram compartilhadas.

“Houve fases em que eu tinha menos uma esposa e mais uma criança”, afirma Stefan, destacando a tensão emocional que surgiu à medida que ele assumia mais tarefas. Essa dinâmica não apenas afetou Jessica, mas também gerou um peso significativo para Stefan, que se viu cada vez mais sobrecarregado.

Importância de estabelecer limites

Birgit Esch, terapeuta familiar sistêmica na Alemanha, enfatiza que a inclusão dos familiares no tratamento é crucial para a recuperação. Ela observa que muitos familiares enfrentam um período intenso de estresse e ansiedade antes que a pessoa afetada busque tratamento profissional. “Como você está? Essa pergunta raramente é feita aos familiares”, ressalta Esch.

Para evitar a sobrecarga, Esch orienta que os familiares aprendam a estabelecer limites. Quando ajudam sem serem solicitados, podem inadvertidamente reforçar a passividade do parceiro deprimido, o que pode agravar a situação. Além disso, isso pode gerar sentimentos de culpa nos pacientes, como ocorreu com Jessica, que chegou a expressar que se sentia um peso.

Comunicação e apoio mútuo

A separação da doença e da pessoa é fundamental para que os familiares consigam lidar melhor com a situação. Esch explica que é importante reconhecer que comportamentos como irritabilidade e distanciamento emocional são efeitos da depressão, não da essência do parceiro. A comunicação eficaz torna-se um desafio, mas é essencial para a convivência. Stefan e Jessica, por exemplo, optaram por trocar mensagens para discutir questões delicadas, permitindo que ambos se expressem de forma mais confortável.

Após um ano de tratamento, Jessica começou a trabalhar novamente, embora em meio período. Para Stefan, essa recuperação, ainda que gradual, trouxe esperança. “Agora ela também consegue ir ao supermercado depois do trabalho”, comenta. Valorizar pequenos avanços é uma abordagem recomendada por Esch, que enfatiza que lidar com a doença é um processo desgastante.

Stefan também buscou apoio e terapia, permitindo que ele cuidasse de si mesmo enquanto ajudava Jessica. “Isso é necessário para continuar funcional”, conclui. Embora a convivência com a depressão seja desafiadora, a comunicação e o autocuidado podem facilitar a relação entre os casais.

Nem todos os casais conseguem manter a relação diante da doença. Esch observa que, em alguns casos, separações podem ser necessárias quando a depressão se torna uma justificativa para comportamentos prejudiciais no relacionamento.

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.