PM faz roleta-russa com adolescente e é condenado por tortura Imagens registradas por câmeras corporais registrarem agressões, ameaças com armas e uma 'roleta-russa' contra dois adolescentes durante uma operação na Favela da Caixa D'Água, na Zona Leste de São Paulo. As imagens também mostram invasões a casas sem ordem judicial e o desaparecimento de um material que os policiais tratavam como drogas. Os militares foram condenados pela Justiça Militar.

As gravações foram feitas pouco antes das quatro da tarde, em fevereiro do ano passado. Dois policiais abordam um adolescente. O cabo Sandro Nascimento o segura pela camiseta e pelo pescoço.

Em seguida, o soldado Eduardo Uchoa dá um tapa no rosto do rapaz. Logo depois, Sandro aponta uma pistola para a cabeça do adolescente, que não reage. Os policiais também abordam outro adolescente, que igualmente não reage.

Sandro encosta a arma no olho dele. Poucos minutos depois, chega o sargento Amauri dos Santos. Pela câmera corporal de Uchoa, é possível ver Amauri batendo com uma vara em um dos garotos.

Amauri pede para Uchoa virar de costas para a própria câmera corporal. Em seguida, coloca uma única bala no tambor vazio de um revólver, gira o cilindro, fecha a arma e a aponta para a cabeça de um dos adolescentes. O policial aperta o gatilho, mas o disparo não acontece.

"A roleta russa é o expediente que se utiliza exatamente para torturas psicológicas. Se a munição alimentar a arma, dispara e o sujeito morre. É essa sorte ou azar que realmente inflige o temor na vítima", afirma Giovana Ortolano Guerreiro, promotora de Justiça Militar.

Depois disso, Amauri coloca a arma no rosto e no pescoço do adolescente. Pela própria câmera do sargento, é possível ver que Uchoa presencia a ação, não interfere e ainda ri. Em outro momento, Amauri conversa com o segundo adolescente e, logo depois, empurra a cabeça dele com força contra uma parede.

As imagens mostram ainda que Amauri obstrui a câmera corporal. Quando a gravação retorna, quatro minutos depois, os policiais obrigam os adolescentes a circular pela favela e entram em diversas casas sem mandado judicial. Em uma delas, encontram galões, eppendorfs — suportes usados como pinos de cocaína — e pacotes aparentemente cheios de drogas.

Os pacotes são colocados em uma caixa. O restante do material vai para uma mochila e um saco preto, levados até a viatura do sargento Amauri. Segundo a investigação, esse material desapareceu.

Para a promotora, a entrada nas casas foi irregular e há elementos que indicam que as drogas foram desviadas. As imagens foram encontradas durante uma auditoria de rotina das câmeras corporais. A Corregedoria da Polícia Militar investigou o caso e prendeu Amauri e Sandro.

Durante o processo, Sandro afirmou que encostou a arma no rosto de um adolescente porque se desequilibrou. Amauri disse que o revólver usado na roleta russa era de plástico, que a munição era apenas uma cápsula de sabão e que o material recolhido nas casas era lixo descartado posteriormente. Na quarta-feira (15), o Tribunal de Justiça Militar condenou Amauri dos Santos por tortura, abuso de autoridade, fraude processual — por obstruir a câmera corporal — e peculato, pelo desaparecimento das drogas.