Cruzamentos e disputas aéreas são jogadas comuns no futebol, mas a medicina esportiva investiga os possíveis impactos na saúde cerebral dos atletas. Durante a fase de grupos da Copa do Mundo deste ano, 25 dos 215 gols foram marcados de cabeça, conforme dados da Fifa (Federação Internacional de Futebol). Pesquisas recentes sugerem que a repetição desses impactos, mesmo na ausência de concussão, pode estar ligada a alterações cerebrais significativas.
Estudos científicos focam em exames de imagem que analisam a substância branca, que conecta diversas áreas do cérebro, e a substância cinza, responsável pelo processamento das informações. Alterações nessas regiões podem indicar mudanças na estrutura ou na comunicação cerebral, embora não necessariamente signifiquem que o atleta apresentará sintomas ou desenvolverá uma doença neurológica.
Alterações no cérebro
Uma revisão sistemática publicada em maio na revista Neuroradiology avaliou 13 estudos de ressonância magnética em jogadores de futebol e concluiu que o cabeceio está associado a mudanças moderadas a grandes na integridade da substância branca. No entanto, alterações metabólicas e estruturais foram consideradas menores e com significado clínico incerto.
Pesquisadores da Universidade Columbia (EUA) apresentaram um estudo na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte em 2024, analisando exames de ressonância magnética de 352 jogadores amadores, comparando com 77 atletas de esportes sem colisão. Jogadores que cabeceavam com mais frequência apresentaram alterações na substância branca, especialmente em regiões do lobo frontal, associadas a um desempenho inferior em testes de aprendizagem verbal.
Em 2025, o mesmo grupo publicou uma análise mais aprofundada na revista JAMA Network Open, identificando a região orbitofrontal como crucial para entender a relação entre cabeceios repetidos e o desempenho cognitivo. Contudo, os pesquisadores enfatizam que não é possível afirmar que cabecear a bola causa perda cognitiva ou doenças neurodegenerativas.
Efeitos imediatos e recomendações
Outra linha de pesquisa se concentra em efeitos imediatos. Um ensaio clínico randomizado publicado na Sports Medicine - Open em 2025 revelou que, após 20 cabeceios em 20 minutos, foram observadas mudanças sutis em exames de ressonância e aumento de proteínas sanguíneas associadas a células cerebrais, embora não tenha havido alterações na função cognitiva dos participantes.
O neurocirurgião Andre Gentil, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que as evidências atuais não são conclusivas, mas sugerem a necessidade de medidas para reduzir a exposição a traumas, especialmente em crianças e adolescentes. Ele ressalta que os benefícios da prática esportiva superam os riscos associados.
Risco em investigação
A relação entre cabeceios e o risco de doenças neurodegenerativas ainda demanda estudos prolongados. O maior levantamento em andamento, iniciado em 2014 nos Estados Unidos, é o NCAA-DOD CARE Consortium, que já recrutou mais de 53.000 atletas. Gentil afirma que somente com estudos a longo prazo será possível entender as consequências dos traumas associados ao esporte.
Enquanto isso, a recomendação é diminuir a exposição a impactos na cabeça, especialmente em jovens. Embora a Fifa tenha regras sobre concussões, não possui diretrizes específicas sobre cabeceios. Gentil observa que alguns países já implementaram restrições, como proibir cabeceios para menores de certa idade, e cabe a pais e associações esportivas decidir as melhores estratégias de proteção.
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