Há algo de paradoxal em procurar novidades entre objetos que já pertenceram a outra pessoa. Mas é justamente isso que leva centenas de pessoas ao Centro de Goiânia a vasculhar araras sem a garantia de que vão encontrar o modelo desejado e, curiosamente, fazer dessa imprevisibilidade parte do prazer de consumir. Em uma sociedade que transformou o novo em imperativo e tornou o consumo cada vez mais rápido, previsível e abundante, cresce o interesse justamente pelo que já existia: a peça garimpada, singular e eventualmente marcada pelo tempo.

A lógica do consumo atual funciona assim: produzimos e compramos em tamanha quantidade que abastecemos um mercado inteiro com o excedente dos nossos próprios armários. Depois, retornamos a esse excedente em busca justamente daquilo que a produção em massa tem dificuldade de oferecer: singularidade. O brechó, portanto, desafia a cultura do descarte ao mesmo tempo em que é, em alguma medida, alimentado por ela. Existe porque prolongamos a vida das coisas, mas também porque temos coisas demais.

Criada em 2016, por iniciativa de Thaís Moreira, dona do Empório Armário, a feira de moda circular já é a mais importante do país. Dez anos depois, o que precisava ser legitimado passou a ser desejado.