O Brasil apresenta um cenário preocupante no que diz respeito à armazenagem de grãos, conseguindo estocar apenas cerca de 50% da sua safra. Enquanto os Estados Unidos têm uma capacidade de armazenamento equivalente a 150% de sua produção, com mais de 65% dos silos localizados nas propriedades rurais, o país enfrenta dificuldades que impactam diretamente os custos logísticos e o escoamento da produção.

As informações constam no relatório "Retrato da Logística de Grãos do Brasil", elaborado pela nstech, maior empresa de software para supply chain da América Latina, que utilizou dados da Esalq-Log, da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e do Ministério dos Transportes.

Impactos da insuficiência de armazenagem

O estudo revela que a capacidade de armazenamento nas fazendas brasileiras representa apenas 17% do total disponível. Essa situação leva a uma necessidade de transporte imediato dos grãos após a colheita, o que sobrecarrega as rodovias, eleva os custos de frete e limita a capacidade dos produtores de escolher o melhor momento para comercializar sua produção.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos deve alcançar 356,3 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, um volume recorde impulsionado pelo aumento da produtividade e da área cultivada. No entanto, o déficit de armazenagem continua a ser um obstáculo significativo.

Modal de transporte e custos logísticos

O relatório indica que o transporte rodoviário ainda é o principal modal utilizado para o escoamento de grãos no Brasil. Em 2023, as estradas foram responsáveis por 69% do transporte da soja, enquanto as ferrovias e hidrovias representaram 22% e 9%, respectivamente. A expectativa é que, em 2025, a participação das ferrovias aumente para 25%, mas o transporte rodoviário continuará a dominar.

Essa concentração no modal rodoviário mantém elevados os custos logísticos e aumenta a pressão sobre a frota de caminhões durante o período de colheita. Thiago Cardoso, diretor de Agronegócio da nstech, afirma que o Brasil opera com um excedente estimado de 70 mil caminhões em rotas de longa distância, o que evidencia ineficiências no sistema.

Para enfrentar esses desafios, Cardoso destaca que a agenda ESG e a digitalização tornaram-se pré-requisitos comerciais. Especialistas sugerem que a expansão da rede de armazenagem é uma medida crucial para melhorar a eficiência logística no setor agrícola. Com uma maior capacidade de estocagem, os produtores poderão distribuir o transporte ao longo do ano, reduzindo congestionamentos em armazéns e portos, além de ter mais flexibilidade para comercializar os grãos em momentos favoráveis.