Abilio Wolney Aires Neto Há sentenças que absolvem réus e, mesmo assim, condenam um país inteiro. Foi o que se deu em 25 de novembro de 2025, quando a Corte Interamericana de Direitos Humanos declarou o Brasil internacionalmente responsável pela morte de três adolescentes na Chacina do Tapanã, em Belém do Pará. O crime é de 1994; a resposta da Justiça brasileira, de 2018 — ano em que um júri absolveu os policiais acusados, sem nunca ter, de fato, julgado o preconceito que puxou o gatilho.

Entre uma data e outra, vinte e quatro anos de processo, e um país inteiro que preferiu não perguntar por quê. Não é caso isolado. É sintoma.

Escrevo como quem assiste, não como especialista. Diante da minha formação acadêmica em mais de uma área de ciências humanas, aprendi uma lição que se repete de formas diferentes: contar bem um fato exige, antes de tudo, desconfiar da versão de quem venceu. E a versão oficial, há mais de quinhentos anos, vem sendo escrita pela mesma mão.

Falta a ela, com frequência, a pergunta mais incômoda: a quem, afinal, este país foi desenhado para servir? Em 1992, o filósofo argentino Enrique Dussel subiu a um púlpito em Frankfurt e proferiu oito conferências que ainda hoje incomodam. A modernidade, dizia ele, não nasceu do iluminismo europeu sentado à mesa de um café vienense; nasceu do encontro — violento, assimétrico, sangrento — com a América, em 1492.

A Europa só pôde imaginar-se centro do mundo depois de empurrar o resto da humanidade para a margem.